Receber o diagnóstico de uma doença crônica nunca é fácil, e quando esse diagnóstico envolve o sistema reprodutivo, o peso emocional costuma ser imenso.
Diariamente, recebo mulheres aqui no consultório da Fert-Embryo que chegam assustadas, trazendo exames de imagem e uma infinidade de dúvidas lidas rapidamente na internet. Entre tantas incertezas, a pergunta que mais ecoa nas nossas consultas é muito direta: afinal, quem tem endometriose pode engravidar?
A internet está repleta de informações desencontradas e relatos que, muitas vezes, apenas aumentam o medo e a sensação de impotência. Por isso, o meu papel aqui não é apenas como médico especialista em reprodução humana, mas como alguém que vai caminhar ao seu lado. O diagnóstico não é, e não deve ser encarado como uma sentença definitiva para o seu planejamento familiar.
A endometriose ocorre quando o tecido que reveste o interior do útero (o endométrio) começa a crescer fora dele, atingindo órgãos como ovários, trompas, intestinos e bexiga.
Essa alteração anatômica gera um processo inflamatório contínuo. Contudo, a medicina reprodutiva evoluiu de forma extraordinária nas últimas décadas.
Hoje, nós contamos com tecnologia de ponta, protocolos baseados em evidências científicas e um entendimento profundo da doença para desenhar caminhos seguros e individualizados para cada paciente.
Existe uma crença cultural muito enraizada, passada de geração em geração, de que sentir dor intensa durante o período menstrual faz parte da natureza feminina.
Mas, como médico, eu preciso fazer um alerta muito importante: cólicas que incapacitam as suas atividades diárias, que fazem você faltar ao trabalho ou recorrer a idas frequentes ao pronto-socorro, não devem jamais ser ignoradas ou tratadas como "normais".
Os sintomas de endometriose podem ser bastante variados e se manifestam de forma diferente em cada mulher.
No entanto, o quadro clínico frequentemente inclui dores pélvicas crônicas e severas (que podem ocorrer mesmo fora do período menstrual), desconforto profundo ou dor intensa durante as relações sexuais, além de alterações intestinais ou urinárias que pioram nitidamente durante a menstruação.
Muitas vezes, essas pacientes passam anos relatando essas queixas até receberem o diagnóstico correto.
Se você sente que a dor está limitando a sua qualidade de vida, é fundamental investigar a fundo. O diagnóstico precoce é um dos nossos maiores aliados.
Para responder de forma muito clara: sim, quem tem endometriose pode engravidar. Muitas mulheres conseguem engravidar com endometriose de forma natural, especialmente quando a doença é diagnosticada em estágios precoces, apresenta focos isolados e, principalmente, não comprometeu a anatomia pélvica, o funcionamento das trompas de Falópio ou a qualidade do óvulo.
No entanto, à medida que a doença progride para graus mais avançados, ela pode causar uma inflamação pélvica crônica muito severa. Esse ambiente inflamatório altera significativamente as condições reprodutivas ideais, podendo obstruir as trompas ou afetar a qualidade dos óvulos e a receptividade do endométrio. É exatamente essa cascata de alterações anatômicas e inflamatórias que gera a dificuldade para engravidar.
Quando a gestação natural não ocorre após o período de tentativas orientado clinicamente (geralmente um ano para mulheres até 35 anos, e seis meses para mulheres acima dessa idade), não significa que as suas opções acabaram.
É nesse momento que a reprodução assistida, especialmente a Fertilização in Vitro (FIV), entra em cena. A FIV é uma ferramenta de alta complexidade e tecnologia projetada exatamente para contornar esses obstáculos pélvicos e inflamatórios.
Na Fert-Embryo, nós realizamos a união do óvulo com o espermatozóide em um ambiente laboratorial altamente controlado. Nossa incubadora com o sistema Time Lapse (Embryoscope), permite o monitoramento contínuo do desenvolvimento inicial dos embriões.
Um dos maiores dilemas que enfrentamos juntos no consultório, e que exige uma avaliação médica extremamente minuciosa, é a decisão sobre a necessidade de intervenção cirúrgica antes de iniciarmos um tratamento de fertilidade. Existe um mito de que operar é sempre o primeiro passo, mas a realidade clínica nos mostra que fazer a cirurgia de endometriose antes de um tratamento de reprodução assistida não é uma regra absoluta.
Nós avaliamos cada caso de forma individualizada, pesando riscos e benefícios. Se a paciente apresenta dores pélvicas severas, refratárias a medicações, que afetam drasticamente a sua qualidade de vida ou trazem riscos de obstrução intestinal e urinária, a cirurgia pode ser o caminho inicial mais indicado.
Porém, quando o foco principal é o planejamento familiar, precisamos ter muita cautela. Procedimentos cirúrgicos realizados nos ovários para a retirada de endometriomas (cistos de endometriose) podem, inevitavelmente, remover tecido ovariano saudável junto com o tecido doente.
Isso pode reduzir drasticamente a quantidade de óvulos disponíveis. Por isso, a decisão entre operar ou seguir direto para a Fertilização in Vitro é tomada em conjunto, baseada em exames detalhados de imagem, na sua idade e no seu histórico clínico completo, sempre com o objetivo de proteger o seu corpo.
Como a endometriose é uma doença evolutiva e as próprias cirurgias necessárias para tratá-la podem impactar diretamente a sua capacidade reprodutiva, nós precisamos, obrigatoriamente, falar sobre a sua reserva ovariana. A reserva ovariana é o "estoque" de óvulos que você possui.
Se você foi diagnosticada com a doença, mas a maternidade não faz parte dos seus planos para este exato momento da vida, a medicina preventiva oferece uma excelente alternativa. O congelamento de óvulos (criopreservação) é uma estratégia médica altamente recomendada e eficaz. Ao preservar a sua fertilidade precocemente, nós conseguimos coletar os seus óvulos e mantê-los congelados em nitrogênio líquido. Na prática, nós "congelamos o tempo" para esses gametas.
Essa atitude permite a você um planejamento familiar, permitindo a oportunidade de buscar a gestação, permitindo que você tenha a oportunidade de buscar a gestação no futuro, no momento que julgar mais adequado, utilizando gametas que foram protegidos dos avanços inflamatórios da doença ou dos impactos secundários de possíveis intervenções cirúrgicas necessárias para o seu bem-estar.
Você não precisa e não deve trilhar esse caminho com dúvidas, dores ou medos solitários. A nossa equipe multidisciplinar na Fert-Embryo está preparada para olhar para o seu cenário real, com empatia, ética e profundo conhecimento técnico, para desenhar o tratamento mais inteligente e seguro para a sua vida.
Dr. Wilson Jaccoud
Diretor Téc. da Fert-Embryo
CRM-SP 41.142 | RQE 130381
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